APRESENTAÇÃO
A experiência prisional é influenciada por uma variedade de fatores que podem afetar a saúde mental dos reclusos, desde as vivências e desafios prisionais até aos fatores individuais. Neste contexto, as dificuldades emocionais mais recorrentes variam entre a depressão, a ansiedade e a ideação suicida. Diversos estudos sugerem que a população reclusa apresenta maior probabilidade de ter vivenciado adversidades na infância, visto que a negligência e o abuso infantil são preditores de delinquência e comportamentos criminais. Devido à escassez de estudos que relacionam as presentes variáveis, o principal objetivo deste estudo foi investigar a relação entre as adversidades na infância dos reclusos e o desenvolvimento de perturbações de foro mental, especificamente depressão, ansiedade e ideação suicida, quando em ambiente prisional. O presente estudo, com uma amostra de 124 participantes, recolhidos através de dois estabelecimentos prisionais no distrito de Lisboa, consistiu na resposta dos reclusos à Escala de Ansiedade e Depressão Hospitalar (HADS), ao Questionário de Ideação suicida (QIS) e ao Questionário de História na Infância (ACE). Os resultados revelaram associações estatisticamente significativas entre diversos domínios das adversidades na infância e a ansiedade, a depressão e a ideação suicida. Adicionalmente, os modelos de regressão linear demonstraram que as adversidades na infância são preditores de ansiedade e ideação suicida mas não de depressão. Entre as dimensões analisadas, destacaram-se o abuso emocional, que revelou maior impacto na ansiedade e na ideação suicida e a presença de doenças mentais na família que apresentaram maior relevância na ideação suicida. Os presentes resultados reforçam a importância de considerar as adversidades na infância dos reclusos, evidenciando a necessidade de uma intervenção psicológica adequada de forma a reduzir a incidência de perturbações mentais nesta população. (Marta Alexandra Neves Soares)