APRESENTAÇÃO
Esta dissertação, realizada no âmbito do Mestrado Integrado em Arquitetura, constitui-se em estudar o contributo da cor para qualificar a experiência do utilizador num espaço público. Esta é entendida como um elemento modelador do espaço público, com enfoque nas estações do Metropolitano de Lisboa. Assim, o presente estudo procurar compreender a influência de três elementos – a cor, a luz e a materialidade – para a definição de ambientes, para a orientação de espaços, para a segurança e para o conforto dos utentes, para a edificação da identidade cultural e simbólica do espaço público. A cor é um fenómeno multidimensional, físico, psicológico e social. As interações entre a luz, a matéria e a perceção visual dizem respeito ao plano físico; as emoções e os comportamentos dos indivíduos, que podem despertar tranquilidade, tensão, conforto ou desconforto (Branco, 2022) relacionam-se com o plano psicológico; por sua vez, no plano social e cultural, a cor é a expressão de memórias urbanas, de identidades coletivas e de valores partilhados (Jaglarz, 2023). Neste contexto, o estudo aqui desenvolvido assenta em três eixos basilares – a cor, o espaço e o utilizador. A articulação entre estes três eixos permite a compreensão da cor como um elemento orientador ou estético, comunicando e estruturando a experiência do espaço público. Gomes & Gamito (2022) consideram que a relação entre a cor e a luz é indissociável, sendo que a perceção cromática depende da iluminação (natural ou artificial), da sua incidência e da sua manipulação. Quanto à metodologia adotada, esta dissertação combina, para além de uma pertinente revisão bibliográfica, o levantamento cromático in loco e a aplicação de inquéritos a utilizadores do metro, em quatro estações específicas – Campo Pequeno, Restauradores, Olaias e Gare do Oriente. Em primeiro lugar, estas estações constituem exemplos paradigmáticos de diferentes fases de expansão e linguagens visuais do metro, permitindo uma leitura comparativa entre distintas conceções do espaço público. A escolha responde, assim, à necessidade metodológica de compreender como a cor foi pensada e aplicada em diferentes períodos e contextos arquitetónicos, refletindo evoluções tanto estéticas como simbólicas e funcionais. A estação do Campo Pequeno representa uma fase de consolidação do metro e uma abordagem cromática mais contida e funcional, onde prevalece a sobriedade dos materiais e a neutralidade tonal. A sua inclusão permite observar a perceção da cor em ambientes mais discretos e quotidianos, bem como o impacto da ausência cromática na experiência do utilizador. A estação dos Restauradores, uma das estações históricas do eixo central da cidade, constitui um exemplo de requalificação em que a introdução de painéis artísticos e contrastes cromáticos visa revitalizar um espaço originalmente marcado pela austeridade visual. A estação das Olaias destaca-se pela sua forte expressividade plástica e cromática, concebida por Tomás Taveira para a exposição mundial de 1998. É uma estação emblemática pela sua experimentação formal e explosão de cor, tornando-se um caso de estudo essencial para compreender o impacto sensorial e emocional do cromatismo intenso no espaço público subterrâneo. A estação da Gare do Oriente, projetada por Santiago Calatrava, representa a síntese entre luz natural, estrutura e cor, integrando-se num vasto complexo multimodal que combina arte, engenharia e transparência. A escolha desta estação visa ilustrar uma abordagem contemporânea e harmoniosa da cor, onde esta é parte de uma atmosfera arquitetónica coerente. A diversidade destas quatro estações permite, portanto, abranger diferentes escalas de intervenção, intenções cromáticas e experiências sensoriais, constituindo uma amostra metodologicamente equilibrada. Esta seleção assegura um quadro comparativo representativo do modo como a cor atua como elemento de mediação entre espaço, utilizador e identidade urbana, possibilitando uma análise simultaneamente empírica e fenomenológica. A análise dos dados recolhidos com a aplicação dos inquéritos confirmou a relevância da cor para o bem-estar individual e para o sentido de pertença oferecido pelo espaço. Efetivamente, a cor, aplicada conscientemente, beneficia a funcionalidade e a legibilidade do espaço, promove a inclusão e reforça a identidade do lugar, adquirindo o estatuto de ferramenta fundamental da arquitetura e do urbanismo. (Diogo Ferreira da Silva de Matos Preto)