APRESENTAÇÃO
Segundo o Modelo Bioecológico de Bronfenbrenner, o ser humano desenvolve-se em interação com o meio, de acordo com a qualidade dos diferentes contextos onde habita. Na infância, é no seio das relações familiares, e em particular, pela qualidade da vinculação aos pais que a criança aprende o modelo de si e do outro, com consequências que se repercutirão ao longo de toda a sua vida. Mais tarde, no período da adolescência tardia e início da vida adulta, ganha destaque o grupo de pares, com impacto numa multiplicidade de dimensões da vida do adolescente/jovem adulto. Simultaneamente, é neste período que o jovem é confrontado com a exigente tarefa da construção da identidade e autonomia, tornando esta fase da vida uma das mais desafiantes, a que acrescem as ameaças que caraterizam o “mundo líquido” contemporâneo, tal como proposto por Bauman. O eixo sociológico atual reveste-se de ameaças até há pouco tempo inimagináveis: uma guerra Ucrânia-Rússia que traz a ameaça de uma guerra à escala global e um período pós-pandémico em resultado do que foi um dos maiores desafios à humanidade dos últimos séculos. Como tal, o presente trabalho afigura-se pertinente dada a importância do estudo da resiliência e dos fatores protetores da saúde mental dos jovens. Este estudo, de natureza quantitativa, tem como objetivo compreender e caraterizar a relação entre a resiliência (dos jovens), a regulação emocional, a qualidade da vinculação com os pais e pares e as forças familiares. Participaram neste estudo 138 jovens (101 mulheres e 37 homens), com idades compreendidas entre 18 e 25 anos. O plano metodológico inclui a administração de cinco instrumentos: (1) Questionário socio-demográfico, (2) a “Escala da Resiliência”, (3) o “Inventário de Vinculação na Adolescência”, (4) o “Questionário de Regulação Emocional” e (5) o “Questionário de Forças Familiares”. Os resultados indicam uma associação positiva significativa entre a resiliência e as forças familiares. Indicam também uma associação positiva significativa entre a resiliência e a estratégia de regulação emocional de reavaliação cognitiva. Encontrou-se ainda uma associação positiva significativa entre a resiliência e a qualidade da vinculação ao pai e aos pares. De destacar também uma associação positiva significativa entre a resiliência e a vinculação à mãe, na subescala de comunicação. Os resultados indicam ainda uma relação significativa entre a regulação emocional e as forças familiares, sugerindo que os jovens que se sentem apoiados pela família recorrem mais frequentemente à utilização de estratégias de regulação emocional adaptativas (reavaliação cognitiva) para lidarem com emoções menos positivas. O estudo das diferenças de acordo com o padrão de vinculação mostrou diferenças significativas no que diz respeito à resiliência e forças familiares, com o padrão de vinculação seguro a pontuar uma média mais elevada. O estudo de regressão mostrou que a estratégia de regulação emocional adaptativa “reavaliação cognitiva” e as forças familiares (i.e., resiliência familiar) são preditores da resiliência do indivíduo. Em suma, os resultados revelam que quanto melhor a qualidade da vinculação, mais os jovens recorrem a estratégias de regulação emocional adaptativas e mais resilientes se tornam. Conclui-se que a família apresenta um papel fundamental no desenvolvimento e promoção de resiliência e que o uso da estratégia de reavaliação cognitiva ajuda o jovem a lidar com as adversidades. (Beatriz Alexandra Parreira Silveira)