Passada uma década desde o golpe de Estado que assolou o Mali em 2012, apesar da multiplicidade de esforços nacionais, regionais e internacionais para a sua estabilização, o país continua imerso numa crise política e securitária, com consequências devastadoras que, dada a posição geográfica que ocupa, afetam igualmente a segurança e estabilidade do Sahel. A presente investigação analisa o contributo que as missões destacadas no Mali sob os auspícios da Organização das Nações Unidas e da União Europeia têm proporcionado aos esforços nacionais em torno da Reforma do Setor de Segurança. O estudo considera em particular o período subsequente à assinatura do Acordo de Paz 2015, que estabeleceu o quadro político para a implementação da reforma e para a prestação de apoio pela comunidade internacional. Metodologicamente, são analisados e contrastados dados qualitativos primários, derivados de entrevistas realizadas, e dados secundários qualitativos e quantitativos que permitem, por um lado, avaliar o progresso alcançado na implementação das disposições do Acordo relativas à Reforma do Setor de Segurança e, por outro lado, identificar os desafios que as missões têm vindo a enfrentar na operacionalização dos respetivos mandatos. A análise permitiu concluir que a discordância entre as partes e a consequente incapacidade de cumprimento das etapas estipuladas tem impedido o progresso na Reforma do Setor de Segurança maliano. Além disso, a inadequação da importação de modelos ocidentais para Estados como o Mali, cuja arquitetura de segurança é marcadamente híbrida, multiétnica e dinâmica, é demonstrativa da necessidade de conceber mecanismos de apoio externo que tenham por base uma lógica bottom-up e que sejam adaptadas ao contexto. Este exercício deve basear-se na promoção do poder de agência de todos os atores envolvidos na implementação da Reforma, que pressupõe uma abordagem whole-of-society, com vista à participação plena e efetiva da sociedade civil maliana, de modo a substantificar a apropriação nacional do processo e refletir as necessidades de segurança e justiça da população. (Ani Borislavova Davidova)