A presente dissertação é um estudo qualitativo exploratório sobre a experiência do luto na perda gestacional (PG). Foram entrevistadas 11 mulheres que passaram por pelo menos uma PG. Os instrumentos utilizados foram: o questionário de dados sociodemográficos e a entrevista semiestruturada. As entrevistas foram feitas na modalidade on-line, via plataforma de videoconferência, tiveram imagem e áudio gravados e foram posteriormente transcritas integralmente. A partir da análise do conteúdo, realizada segundo o Modelo Misto e o Modelo de Processo Dual de Lidar com o Luto, foram identificadas áreas temáticas, categorias e dimensões. O resultado e a discussão fundamentam-se na perspetiva psicanalítica. Cinco foram as áreas temáticas encontradas nas narrativas das participantes: 1) Maternidade, como um constructo psicosociocultural; 2) Apoio, como efeito do reconhecimento social da perda; 3) Busca de sentido, na adaptação à perda; 4) O processo do luto, estratégias e recursos intra e intersubjetivos; e 5) A experiência da PG e o ambiente de trabalho, o luto como vivência sujeita aos paradigmas da cultura contemporânea. Os resultados demostraram que o luto na PG é percebido como um processo solitário, de natureza subjetiva e de difícil apreensão. Verificou-se a presença da necessidade de partilhar, em associação livre e num contexto em que há a suspensão de juízo de valor, a vivência do luto na PG. Concluiu-se que no discurso social a experiência materna do luto está submetida ao paradigma da produtividade e do desempenho, introjetado no comportamento das enlutadas, tornando imperativo o silenciamento do pesar que tem consequências sobre o estado psicoemocional. (Christine Nicklas de Souza)