O papel estratégico do professor do ensino superior no desenvolvimento socioeconómico é inquestionável, pelo que zelar pela saúde e bem-estar destes profissionais deverá constituir uma preocupação premente. A progressiva digitalização do ensino integra as transformações a que a atividade docente tem sido exposta. As Tecnologias de Informação e Comunicação trouxeram diversas vantagens, mas a sua utilização pode induzir stress – tecnostress - que tem sido principalmente considerado numa perspetiva negativa e prejudicial - tecnodistress. O presente estudo foca-se na pouco explorada vertente positiva – tecnoeustress – e tem como objetivo geral conhecer como pode a utilização das tecnologias no trabalho influenciar de forma benéfica o stress ocupacional e a atividade dos docentes do ensino superior. Para este fim, foi desenvolvido um modelo de relações, diretas e de moderação, que integra aspetos contextuais (caraterísticas da tecnologia e mecanismos organizacionais relacionados com o uso das tecnologias) e pessoais promotores de stress positivo e subsequentes atitudes e comportamentos de trabalho. Estudou-se também a evolução temporal destes fatores e respetivas relações em dois momentos, ambos sob as circunstâncias originadas pela pandemia COVID-19 e que envolveram o ensino remoto. O modelo foi empiricamente validado com recurso a uma metodologia mista, qualitativa e quantitativa. Realizaram-se entrevistas semiestruturadas e recorreu-se à análise temática visando explorar perspetivas adicionais ao modelo conceptual de origem. Efetuaram-se trabalhos prévios de tradução, adaptação e validação dos 11 instrumentos de medida numa amostra representativa dos docentes do ensino superior portugueses. Através de um survey online, participaram no estudo 1.107 professores a nível nacional e obtiveram-se 712 respostas emparelhadas para o estudo evolutivo. A análise quantitativa foi concretizada utilizando-se análise exploratória e inferencial de dados e análise de equações estruturais. Os principais resultados revelaram que a utilidade e a fiabilidade (caraterísticas da tecnologia), a literacia sinérgica (mecanismo organizacional), a consciência tecnológica, as estratégias de coping e a idade (variáveis individuais) influenciam direta e positivamente o tecnoeustress, o qual se associou positivamente com a satisfação e o desempenho no trabalho. No segundo momento observou-se, genericamente, estabilidade nos resultados, conquanto sobressaindo a utilidade das tecnologias como preditor de stress positivo. São apresentadas as contribuições para a investigação e para a gestão, visando otimizar o funcionamento dos docentes e das instituições do ensino superior. (Maria Lígia Jardim do Nascimento Pires Brás)