APRESENTAÇÃO
As origens desta abordagem da consciência perdem-se nos confins dos tempos. Assim, e tanto quanto sabemos, sábios anciãos da antiguidade utilizavam diversas ervas acompanhadas do estado de transe que até hoje são, em alguns locais do mundo, usadas com o objetivo de curar o corpo e a mente.
Na Babilônia foram encontrados escritos antigos com referências ao estado de hipnose. Trata-se mais precisamente de um poema épico chamado de “Epopeia de Gilgamesh”, considerada a obra de literatura mais antiga do mundo.
No Egito antigo, os anciãos também utilizavam a hipnose como forma de cura. Esses sacerdotes induziam os pacientes a um estado hipnótico semelhante ao sono. Eram nos templos do sono que os doentes ficavam internados, dormindo profundamente por um determinado tempo para se curarem de suas enfermidades. Já na Grécia Antiga, o deus grego Asclépio era conhecido como o deus da medicina. O templo de Asclépio era Epidauro, que se tornou num local de cura onde os estados de sono eram utilizados para tratar os enfermos. Na índia Antiga existiam tradições que levavam as pessoas ao estado de transe com a finalidade de cura.
Mas o que acabamos de descrever não é, propriamente, a hipnose tal com a conhecemos na atualidade já que este não induz o sono, mas sim um estado particularmente intenso de relaxamento que permite que o “Eu” navegue por muitas da suas “regiões interiores” em busca de respostas para sofrimentos, mais ou menos subjetivos, que atormentam o ser humano.
Diz-se que a história da hipnose moderna começa nos fins do século XIX, princípios do século XX com homens como James Braid, Jean Martin Charcot, Sigmund Freud (que a abandona por tanto quanto parece não conseguir induzir o estado de hipnose em muitos dos seus pacientes. De realçar que Freud era um neurologista brilhante, pai da psicanálise, com uma baixa tolerância às frustrações e falhanços), Ivan Pavlov, Dave Elman (que influenciou o Papa Pio XII no que respeitou à adesão aos princípios e eficácia da hipnose), Milton Erickson (fundador da American Society of Clinical Hypnosis) que foi um dos hipnoterapeutas mais influentes no pós-guerra e cujas as ideias ainda hoje são aceites em muitos cantos do mundo, entre os quais Portugal.
Mas, afinal, o que são a hipnose e a hipnoterapia? Vejamos:
A hipnose é comumente definida como um estado alterado de consciência, mas nós gostamos de entendê-la como um estado hiper focado de concentração planeada.
A hipnoterapia é uma terapia que tem o apoio da hipnose, que serve para o tratamento de transtornos emocionais e doenças psicossomáticas utilizando o foco e a concentração. Riscos? Nem por isso. Raríssimos, com total ausência de perigo para a integridade do paciente e totalmente reversíveis. Assenta na indução de um estado de sono? Nunca (só se o paciente adormecer naturalmente porque tem sono…). Acrescentando, o paciente terá de estar acordado para interagir com o hipnoterapeuta, caso contrário todo o processo será ineficaz. Resposta absoluta para as alterações psíquicas (incluindo as psicossomáticas)? Não. Precisa de estar associado a um processo psicoterapêutico. Recorre ao uso de “drogas”? Nunca. Quais são, então, as principais aplicações: ansiedade (com o sem manifestações fóbicas), depressão, perturbações do sono, síndroma do colón irritável, certas formas de cirurgia, estomatologia, cuidados paliativos…
A hipnoterapia é hoje reconhecida pela Organização Mundial de Saúde e pela Ordem do Psicólogos Portugueses como meio interventivo absolutamente válido. Quem pode ser hipnoterapeuta em Portugal? Psicólogos, psiquiatras e neurologistas, com formação especializada nesta área.
Um apontamento português da máxima importância: pouco se falando, injustamente, neste nome há que referir alguém que talvez tenha sido, ao que parece e porventura, o primeiro grande mestre da Hipnose Moderna. Referimo-nos a José Custódio de Faria que nasceu em Goa, em 30 de maio de 1746, e faleceu em Paris, em 20 de setembro de 1819, mais conhecido pelo nome de Abade de Faria e louvado pelo nosso Prémio Nobel, Professor Egas Moniz, na sua obra com o mesmo nome. José Custódio, influenciado pelas ideias de Franz Anton Mesmer, o “mago” do magnetismo animal, outra técnica (controversa, mas eficaz) de lidar com o “Eu”, através do Marquês de Puységur, terá sido, talvez, o verdadeiro pioneiro da Hipnose Moderna. Honra lhe seja feita (Abade Faria na história do hipnotismo / Egas Moniz. Lisboa : Editorial Veja, 1977)!