APRESENTAÇÃO

Muitos discursos dirigidos hoje contra as instituições que prestam serviços educativos e sociais na área da deficiência assentam em visões críticas dos funcionamentos institucionais informadas pelo conceito sociológico de «Instituição total». Assim, muitas tomadas de posição e muitos apelos em favor de uma política de «desinstitucionalização» na área da deficiência impõem ao debate público uma problematização insuficientemente explicitada e questionada, que propaga uma visão negativa das instituições integrantes do Movimento CERCI, que mais contribuiu para promover, no Portugal democrático do pós-25 de Abril, políticas e respostas sociais que garantem o bem-estar e os direitos das pessoas com deficiência e das suas famílias.
Para enfrentar estes discursos, é imperioso regressar a uma das suas principais fontes, a saber, o livro intitulado «Asylums», da autoria do sociólogo norte-americano Erving Goffman, publicado em 1961, considerado, com razão, como um dos grandes clássicos da sociologia.
A posição defendida pelo docente consistirá em argumentar que seria vão e perigoso, do ponto de vista dos valores que norteiam as ações do Movimento CERCI e do Serviço Social, de pretender rejeitar e ignorar a obra, sempre atuante, de Erving Goffman, por ser demasiado incómoda.
O caminho sugerido é mais exigente: aprender a se auto-observar e auto-questionar não contra Goffman, mas, sim, com Goffman, à luz do seu conceito de «Instituição total».
Uma tal démarche permitiria de realizar e de fundamentar três descobertas:
- Aprendentes, reflexivas e autocríticas, as organizações do Movimento CERCI, associadas no seio da FENACERCI, já promovem de longa data ações regulares de autoquestionamento e de ajustamento dos seus funcionamentos institucionais que são muito alinhadas com a perspetiva crítica desenvolvida por Goffman. Tal descoberta provoca uma inversão de quadro (reframing): longe de constituir uma ameaça, a referência a Erving Goffman constitui uma oportunidade de valorização do trabalho de humanização assente num modelo de organização centrada na pessoa, levado a cabo, em graus variáveis e por modos diferentes, pela FENACERCI e as suas associadas;
- A descoberta anterior empodera a FENACERCI e as suas associadas, para enfrentar os discursos que perpetram ataques contra as instituições, baseadas numa compreensão incompleta e enviesada das orientações argumentativas decorrentes da obra de Erving Goffman. Bem compreendidas, as conclusões e ilações, sempre atuais, do estudo seminal de Goffman, não sustentam políticas de desmantelamento de instituições, que, abertas sobre a comunidade, souberam incrementar funcionamentos institucionais inclusivos e empoderadores, vocacionados a servir de modelos para muitas outras instituições;
- Afinal, a lista das instituições passíveis de serem interpeladas e questionadas à luz do conceito de «Instituição total» é muito mais extensa do que a sua instrumentalização, em certos debates, pode deixar transparecer. E, sendo assim, é de constatar que a FENACERCI e as suas associadas são mais avançadas do que outras instituições, na reapropriação de um olhar autovigilante de inspiração goffmaniana.