Com esta dissertação fazemos uma investigação de largo espectro de diversas estratégias operativas da obra aberta, cruzando abordagens de diversos meios artísticos com a Arquitetura para chegar a pontos de contacto que forneçam pistas sobre como maximizar o potencial latente no ambiente construído, tal como, ao longo do século XX, os outros meios artísticos o fizeram, ao explorar novos modos de relacionamento entre a obra, o seu fruidor e o meio particular em que a fruição acontece. Tais práticas configuram a obra como evento, condicionada cada vez menos por uma realidade que representa, ou uma mensagem que o autor oferece, e mais por todos os outros elementos da situação, em particular o fruidor.
Os exemplos em estudo são obras heterogéneas, ambíguas, numa palavra: abertas. Explorações sobre o espaço genérico e o lugar vazio, que oferecem uma pluralidade de mundos formais para que conduzam à individuação do ato de interpretar/habitar. Por não serem fácil e irrevogavelmente apreendidas pelo hábito, estimulam comportamentos não prescritos, que não estão formatados num sistema prévio de referências do indivíduo. Obras cuja utilização e apropriação requerem, por parte do utilizador, uma abordagem crítica, criativa e imediata, que enquadram o habitar como performance. Veremos como autores, artistas e correntes de pensamento evidenciam o papel nefasto da rotina e consequente placidez, tédio e desatenção. E, por perceberem a sua responsabilidade na criação da estrutura de condicionantes que as causam, a cada obra procuram (através de uma série de táticas que exploraremos) eliminar-se, tornar secundário o seu papel na equação, para que os comportamentos que evocam surjam de modo imprevisto, para que o seu significado e utilização não se definam a priori mas dependam do fruidor e das circunstâncias em que o faz. (David Carlos Santos Ferreira)